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Posts Tagged ‘Paulo Leminski’

Grande Familia

Bem no Fundo

no fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela – silêncio perpétuo

extinto por lei o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas

 

(Poema integrante da série Distraídos Venceremos)

Paulo Leminski (1944 – 1989)

 

 

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Morte-Vida nova

 

Morrer me acalma

 

já me matei faz muito tempo

me matei quando o tempo era escasso

   e o que havia entre o tempo e o espaço

era o de sempre

   nunca mesmo o sempre passo

 

   morrer faz bem à vista e ao baço

melhora o ritmo do pulso

   e clareia a alma

  

   morrer de vez em quando

é a única coisa que me acalma

 

 

 
 
 

 

 

Publicado no Cafofo da LuLu em 09 de outubro de 2006  às 12:12

 

 

Hà alguns anos comecei a questionar o valor agregado das palavras, ou melhor, de certas palavras que carregam culturalmente um peso de malignidade, tristeza, medo e negatividade, mas que na verdade, tem muitos mais significados além desses que podem e devem ser usadas por nòs de maneira benefica. Talvez eu seja bem doidinha, mesmo, mas acredito de verdade que a mente aberta, receptiva a novas idéias ou uma experiencia rica e consciente, podem nos libertar das amarras que certas palavras tem e a comunicaçao verbal, enfim, contribuirà pra um salto quantico, hoje inimaginavel, da humanidade.

A palavra morte, por exemplo. Eu sei é dificil até pronuncia-la. Poisé, a morte carrega tanto peso e dor por ser muito usada no seu sentido mais conhecido, o da transmutaçao fisica, que nem sequer nos permitimos ousar e nos beneficiarmos com seu poder verdadeiramente transformador. Digo poder pois o fim que a morte significa é tao definitivo e indiscutivel quanto o inicio que ela prenuncia. E’ nisso que acredito: que a morte-inicio é natural e tao òbvia quanto um pendulo onde o movimento de ida nao existe sem o de vinda. A morte-inicio é tao simbiotica e purificadora quanto uma membrana fina, fina, que deixa passar o liquido e ao mesmo tempo filtra as impurezas. A morte-inicio é um àtimo de segundo em movimento como uma caixa de presente que no exato instante que deixa as maos do remetente jà inicia o percurso de chegada às maos do destinatario. Taì, talvez o que nos faz apegar-se ao medo seja a duvida pungente: quem receberà esse pacote? Bom, aqui entra a religiosidade de cada um e é um papo bem longo e isso eu nao vou discutir hoje. O que prefiro ressaltar é: morrer faz parte da vida, todo mundo sabe, como diz o chavao. Nossas celulas morrem aos milhoes de milhares a cada dia no processo mais perfeito da renovaçao da vida e nada disso nos incomoda, ao contrario, convivemos com isso quotidianamente. ‘E necessario toda essa renovaçao para a continuidade saudàvel da vida. Alguns biologos chegam até a afirmar que a funçao da morte é primariamente permitir a evoluçao.

Entao, que assim seja. Quero que tudo aquilo que nao me cabe mais, que jà completou seu ciclo morra em mim e se renove. Quero deixar morrer o apego, a imagem pre-concebida, o julgamento apressado, a grosseria, a defesa armada, a burrice, a angustia, a preguiça, o cinismo, o sarcarmo, a soberba, a inveja, o ciùme… Quero deixar morrer a raiva e a agressividade ancestral que existe em mim e permitir o crescimento da docilidade e da ternura. Quero deixar morrer o medo do destinatario desconhecido e aceitar que cada passo meu seja dado com firmeza, mesmo sem certezas, em si e por si somente. Quero deixar morrer o ontem e iniciar com muita alegria cada novo hoje que recebo de presente. Quero morrer, quero viver e quero evoluir continuamente, todos os dias, necessariamente nessa ordem.

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